Todos nós passamos por fases que foram e são muito importantes para a construção de quem somos hoje em dia. 

Nascemos, crescemos e nos desenvolvemos psicologicamente graças a estímulos e significados que elaboramos aos poucos. Conforme amadurecemos nossa capacidade de entender as coisas como são se aprimoram. 

Quando crianças nós mantemos um modo de nos comportar que é muito intenso, puro, porque ainda não sabemos como lidar com emoções, como verbalizar o que queremos, o que sentimos. 

As frustrações, crenças desenvolvem em nós medos e temores que moldam nosso jeito de ser. 

Todos temos lembranças de situações que assimilamos como ruins na época da infância. Em algum momento nos sentimos amedrontados ou violados. 

São extremamente comuns situações na infância onde não recebemos atenção (ou tivemos a percepção de que não fomos notados o suficiente), onde registramos que o irmão é sempre melhor tratado do que nós ou registramos comportamentos como sinal de que não somos amados ou queridos o bastante. 

Isso porque tivemos pais que antes de serem pais são simplesmente pessoas que também têm seus traumas e conflitos. 

Nossos pais cuidaram de nós da melhor forma possível, mas eles são apenas seres humanos. Como tal erraram e acertaram em nossa criação. 

E não estamos falando de um erro enorme, algo tenebroso ou de uma situação absurda de violência ou algo parecido. Falamos de algum trauma construído depois de um simples “não”, por exemplo. 

Porque quando ainda não entendemos a vida com todas suas dinâmicas, perigos ou possibilidades, quando recebíamos um não até para nos proteger de alguma coisa já tínhamos a sensação ruim da frustração. 

Vamos pensar em algo bem simples: quem nunca levou um “puxão de orelha” quando queríamos por exemplo, ficar na rua brincando até tarde da noite com os amigos? 

Este é um “não” com aspecto cuidador, ou seja, fomos frustrados em nossa vontade de continuar brincando porque não era seguro ficar à noite na rua por causa da violência ou trânsito. Mas à época, achávamos um absurdo não poder ficar ali, nos divertindo e certamente cultivamos uma raiva, uma mágoa ali na hora da pessoa (geralmente a mãe ou o pai) que não permitiu que continuássemos tendo o prazer de brincar até cansar. 

Esta é uma situação que exemplifica como nosso psíquico funcionava na infância. 

Qualquer frustração, qualquer coisa que ia de encontro com o que queríamos era motivo para raiva, choro e até birra. 

O problema é quando levamos este comportamento até a vida adulta. 

Você pode estar pensando “ah, mas que coisa ridícula, imagina se tem gente adulta fazendo birra até hoje?!”. Olha, tem sim. E muito. Vamos explicar melhor. 

Quando algo não sai como eu planejo, algo ou alguém me faz sentir uma frustração parecida com a que experenciei na infância, esta situação pode servir de gatilho para que automaticamente, sem dar conta, respondemos a isso com um comportamento infantil. 

Só que este comportamento infantil aparece em outros formatos.  

Ao invés de fazer bico e cruzar os braços, eu bloqueei a pessoa que me disse umas verdades. “Nunca mais falo com fulano. Imagine! Falar que eu estou preguiçosa com meu trabalho! ”. 

Ao invés de chorar e se jogar no chão eu fico muito bravo, quebro ou arremesso o que tiver na frente na hora para extravasar minha frustração de não ter o que quero naquela hora. 

Estes são exemplos de birras infantis no formato adulto. 

Podemos até pensar em hipóteses mais gritantes nas situações onde as pessoas não aceitam o rompimento de um relacionamento afetivo, por exemplo. 

As situações extremas de violência, feminicídio e afins depois de um rompimento amoroso servem de exemplo. São reações desproporcionais e imaturas que um adulto mostra, mas ali está uma criança fazendo birra porque algo que ele quer perto de si lhe foi tirado. 

Claro que nestes casos estamos falando de exceções, mas fica fácil perceber como funciona a teoria da “criança ferida” assim. 

Quando por alguma razão não elaboramos alguma frustração ou trauma, por mais aparentemente insignificante que pareça, podemos desenvolver futuramente comportamentos que acabam por comprometer nossa qualidade de vida em algum aspecto. 

Especialmente no que se refere a interações sociais e relacionamentos, quem tem uma criança feriada dentro de si acaba por ter reações inadequadas frente situações que deveriam ser normais, ocasiões pelas quais todos passam. 

Seja porque alguém decidiu terminar um relacionamento, algum amigo que se afastou por alguma razão pessoal, algum projeto que não deu certo, algo que quebrou, enfim, diante de uma situação desconfortável a pessoa reage com um sentimento ou emoção forte, uma fala grosseira demais, gestos extremados ou inconvenientes. 

A partir daí entra-se em um ciclo de situações que só pioram um acontecimento que já era ruim. 

Diante destas reações inadequadas a pessoa passa a desenvolver um sentimento de culpa, uma tristeza e angústia que reforçam ainda mais suas reações. 

O resultado disso são pessoas que se afastam, relacionamentos que não duram nada, a rede de colegas do trabalho vai ficando cada vez menor, etc. 

Mas como podemos perceber se realmente temos uma criança ferida dentro de nossa mente? 

Podemos perceber alguns fatores que são bem comuns em quem tem uma criança ferida em seu inconsciente: 

  • Muita resistência a mudanças, 
  • Percepção distorcida do próprio corpo, 
  • Baixa autoestima; 
  • Pavor de críticas; 
  • Medo profundo de ficar sozinho e ser abandonado nos relacionamentos; 
  • Medo e vergonha de se expressar ou falar de si para outros; 
  • Dificuldade extrema de se posicionar tendendo a esperar alguém o fazer primeiro; 
  • Tendência a sempre se colocar como o salvador de alguém, se envolver com pessoas problemáticas (para supostamente provar seu valor pessoal); 
  • Se sentir responsável pelo o que os outros pensam, agem ou sentem; 
  • Muita dificuldade em dizer não. 

Estes são apenas alguns sinais de quando crescemos com uma criança interior ferida em nossa mente. 

Quando somos pequenos acreditamos com muita facilidade nos adultos. Principalmente se estes adultos forem pessoas de referência para a criança como os pais, avós, professores, etc. 

A inocência infantil faz com que o que é dito seja aceito como verdade muito facilmente. 

Por isso que muitos educadores e psicólogos instruem os pais a terem cuidado com as palavras. Em um momento de muita raiva, frustração ou revolta se a mãe ou o pai diz para a criança algo como “você é burra, não sabe fazer nada direito! ”, ela vai acreditar nisso. 

Inconscientemente ela tem esta “verdade” registrada e esta afirmação, que pode ter sido dita de maneira inconsequente, vai integrar o arquivo de uma criança ferida que será um adulto com conflitos desencadeados por frases assim. 

Imagine uma situação onde Mariana recebe uma mensagem de sua superior dizendo que o texto dela está excelente, só que precisa de uns ajustes antes de publicá-lo. 

Mesmo com a chefe afirmando que seu texto está muito bom e entendendo racionalmente que seu trabalho só precisa de um ou outro detalhe, Mariana se sente nervosa, gagueja muito e pensa coisas como “eu nunca faço nada certo”. 

Isso aconteceu porque quando pequena, Mariana foi toda feliz contar à sua mãe que tirou 8,5 na prova de matemática (que é uma matéria extremamente complicada para ela) e sua mãe reagiu com a frase “ quando é que você vai conseguir tirar 10 em matemática como o seu irmão? ”. 

O “eu infantil” de Mariana naquele instante em que estava muito feliz por superar a si mesma em uma prova que era muito difícil para ela recebeu um balde de água fria, se sentiu diminuído e muito inferior pela pessoa que ela mais admirava: sua mãe. 

Inconscientemente a figura de autoridade assumiu exatamente o mesmo papel de sua mãe anos atrás. Por isso Mariana se sentiu tão mal, tão diminuída. 

A solução para diminuir estes conflitos desencadeados por uma criança ferida, é entrar em contato com sua criança interior e elaborar esses traumas. 

Uma das técnicas que podem ajudar muito é lembrar de situações da sua infância onde você acha que foi ferido e ressignificar estas situações. 

Se ficar difícil lembrar de situações em específico, você pode recorrer a fotografias de quando você era pequeno e repetir para si mesmo: 

– Estou em segurança sendo eu mesmo; 

– Você está seguro agora; 

– Tudo bem sentir um pouco de medo, eu entendo e protejo você agora; 

– Você não precisa ser outra pessoa para agradar aos outros e nem eu preciso também; 

– Nossos pais também tiveram seus medos, erraram e podem ter projetado seus próprios medos em nós quando éramos pequenos e temos de perdoá-los por isso; 

– Eu amo você, eu me amo e agora, estamos seguros. 

Talvez esta técnica pareça algo bobo e sem sentido algum. Isso porque nosso Ego vai fazer de tudo para que continuemos onde estamos. 

Não é fácil reencontrar nossa criança interior e isso gera medo, desconfiança. Esses sentimentos são tudo que o Ego quer evitar. 

O processo de reencontro interior promove a empatia por nós mesmos. Nos permite avançar deixando para trás um peso que já não nos pertence mais. 

Este peso é o medo, a raiva que carregamos secretamente em nós porque lá atrás, quando crianças, aceitamos frases ou situações com uma percepção infantil, sem nenhuma elaboração melhor. 

Por isso é muito válido resgatar estas emoções, encarar estes traumas e nos permitir reconectar a infância, mas de um modo saudável. 

Relembre das coisas que você gostava quando era pequeno. Músicas, desenhos, brincadeiras. 

Isto vai lhe permitir fazer as pazes consigo mesmo e entender que já passou, já é outra fase agora. 

Acessar e curar esta criança ferida é um processo longo, leva tempo. Faça isso devagar, sem exigir demais de si mesmo. 

Aos poucos você perceberá que a vida lhe parece mais leve. 

Isso porque você aprendeu a se aceitar, perdoar e seguir em frente para compor outras histórias de vida que serão lembradas com muito mais harmonia futuramente. 

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