No ano de 1999 o CFP (Conselho Federal de Psicologia) decretou que toda e qualquer Terapia de Reversão, a chamada “cura gay”, fosse terminantemente proibida enquanto práticas legais dos profissionais da saúde mental.

Houve muitos recursos de profissionais visando derrubar esta determinação e afirmando que existe sim a possibilidade de se oferecer tratamento psicológico àqueles que trazem uma identidade homossexual à fim de reverter esta condição.

Ou seja: alguns Psicólogos entendiam que a orientação sexual do indivíduo poderia ser revertida visando, segundo eles, devolver uma melhor qualidade de vida aos mesmos.

Em 2017 uma decisão do STF voltou a permitir tal procedimento de recondicionamento da sexualidade.

Já no ano de 2019 a resolução 1/1990 do CFP voltou a valer coibindo de vez a prática de reversão da sexualidade entre os atributos do profissional da saúde mental.

A definição do CFP estabelece: “Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”.

Ou seja: os psicólogos não podem sugerir que qualquer orientação sexual seja passível de reversão ou cura, visto que admitir um tratamento ou cura, seria admitir doença e, definitivamente, não existe patologia em determinada orientação sexual seja esta de que ordem for.

O conselho profissional acrescenta ainda que além destas práticas serem ineficazes, elas representam uma violação aos direitos humanos e não possuem, em absoluto, qualquer embasamento científico.

Toda esta polêmica se desenvolveu durante anos e ainda hoje existem recursos tramitando solicitando ao CFP que permita tal procedimento.

A questão é muito complexa, embora não devesse gerar tantas discussões visto que a sexualidade é uma dimensão humana que deve ser entendida na totalidade de seus sentidos.

Devemos entender a sexualidade como tema amplo que vai além da relação sexual em si ou a reprodução.

Freud foi o primeiro a estudar e trazer luz sobre como funciona a sexualidade humana que se desenvolve desde a infância.

As pulsões ou o direcionamento de energia sexual (sem a indução erótica do termo) foram analisados e permitiram que se chegasse à conclusão de que a orientação sexual do indivíduo vem desde a infância.

Mas devemos fazer importante adendo ao ressaltar que sexualidade é diferente de sexualização.

A sexualidade é algo inato que vem junto com a formação da pessoa enquanto indivíduo.

Já a sexualização é algo de vem de fora para dentro, ou seja, é um processo no qual se aproveita de alguns atributos da sexualidade humana para inserir significado erótico ou estímulo neste sentido em alguém.

Ao se tratar do tema orientação sexual, estamos falando justamente da sexualidade humana somente.

Ainda hoje existem pessoas que usam o termo “escolha sexual” no que se refere aos relacionamentos afetivos e sexuais.

Não existe esta possibilidade de se escolher por quem se sentir atraído sexual e/ou afetivamente.

Caso fosse possível, é muito estranho imaginar que qualquer pessoa escolhesse ser gay em um mundo onde esta conduta ainda desencadeia repressões, preconceitos e atritos familiares.

Outra base lógica para entender que a homossexualidade é uma orientação e não escolha é observar que entre outros mamíferos existem espécies que preferem se relacionar com indivíduos do mesmo sexo mesmo tendo à disposição indivíduos de outro sexo para manter relações.

Chega a ser surreal ainda hoje ter de explanar conceitos básicos sobre o comportamento homossexual a fim de eliminar qualquer mácula no sentido de se entender este comportamento como errado ou inadequado.

No campo do estudo e trabalho da saúde mental, entendemos como comportamento sexual inadequado aquele que traz sofrimento ou prejuízo na qualidade de vida do indivíduo.

Aquele que entende sua orientação sexual como parte de um todo de sua identidade, vive sua condição (homo, hetero ou bissexual) de maneira equilibrada e sem maiores conflitos pois está em harmonia na vivência e contato com próprio EU.

O conflito maior existe quando a identidade sexual é questionada ou afrontada seguidamente no seu ambiente.

Esta afronta, opressão frente a orientação homossexual pode se tratar de uma assimilação cultivada por gerações de que tal comportamento é sinal de um homem sem qualidades viris, sem força ou masculinidade.

Na Grécia antiga, o comportamento homossexual era mais aceito, mas mesmo assim aquele indivíduo do sexo masculino que se mostrasse com trejeitos afeminados era diminuído frente à sociedade, pois na época, a mulher era vista como alguém muito frágil que não tinha nenhum papel significante na sociedade além de reproduzir de gerar filhos.

Quando alguém demonstra forte aversão á um comportamento alheio seja no que se refere à sexualidade, seja no que se refere a conduta social, afetiva ; é muito provável que quem condena o outro esteja passando por problemas pessoais na mesma área.

Ou seja, ao condenar o outro é provável que o modo como este se comporta desperte em mim uma revolta contra mim mesmo.

Este é o fenômeno de projeção: eu enxergo no outro minhas próprias tendências que eu não aceito ou não entendo muito bem.

O outro seria apenas um agente que desperta meus próprios conflitos interiores.

A terapia é um processo que orienta e esclarece as pessoas sobre seus próprios medos, conflitos, identidade e deste modo o indivíduo pode ter a sua autoestima fortalecida, aceitando a si mesmo de uma maneira saudável, onde considera seus defeitos e qualidades como partes de um todo.

A personalidade é construída ao longo das interações sociais, valores, crenças e comportamentos adquiridos por toda a vida.

A expressão da sexualidade é apenas mais um dos muitos comportamentos inerentes ao ser humano.

Cabe sempre entender que um comportamento que não faz mal ao outro e nem a mim mesmo não pode ser entendido como “errado” ou “doente”.

A orientação sexual pode ser entendida como problemática quando é vivida com promiscuidade, desrespeitando a si mesmo ou a outros.

Isto se deve ao caráter do indivíduo, não a orientação X ou Y.

Existe muita interferência de crenças religiosas, familiares e seus valores ao entender a expressão da sexualidade de determinado modo.

É claro que em uma sociedade onde a expressão heterossexual é propagada com maior frequência, um comportamento destoante disto vai gerar conflitos e reações negativas.

Mas assegurar como certa ou errada a conduta de alguém devido à sua orientação sexual é uma tentativa de moldar o outro segundo minhas próprias crenças ou orientações.

Por isto que oferecer um “tratamento” para que alguém deixe de exercer sua orientação sexual é ignorar totalmente a dificuldade do outro em entender o que é sexualidade, como lidar com sua própria identidade e interagir socialmente de maneira saudável.

A conduta íntima do outro somente diz respeito à ele mesmo. Esta conduta só deve ser questionada caso exista sofrimento na hora de se expressar sexualmente consigo mesmo ou com outra pessoa.

Ao se tratar de comportamento humano nada é simples.

Cada caso é um caso e cada um nasce, cresce e evolui de acordo com o que aprendeu com o que teve como exemplo de conduta dentro de seu círculo familiar.

Todas suas interações sociais são o reflexo do modo como você foi acolhido, orientado e educado diante de suas próprias expressões e tendências.

Na infância os conflitos aparecem, mas não são tão discutidos porque obviamente a expressão verbal na infância ainda não está desenvolvida.

É na pré-adolescência e adolescência que questionamentos maiores inclusive acerca da sexualidade começam a aparecer.

Estes questionamentos e conflitos devem ser conduzidos de maneira equilibrada através do diálogo.

A orientação sexual, a conduta neste campo deve ser acolhida com foco na integridade moral, física e psicológica de quem a manifesta sem conceitos pré-estabelecidos ou crenças limitantes.

Cabe lembrar que dentro do Código Internacional de Doenças Mentais, o CID 10 existe sob o número F66.1 o chamado Transtorno Sexual Egodistônico, que nada tem a ver com a patologização da orientação sexual.

Trata-se de um processo de orientação sexual egodistônica onde o indivíduo que já está ciente de sua orientação sexual rejeita sua bissexualidade ou homossexualidade.

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