A Hipercompensação ou Supercompensação é um processo aonde o indivíduo cria um mecanismo não consciente que visa compensar em si uma característica negativa que ele acredita que possui.

Se o indivíduo se sentia “defeituoso” na infância, quando adulto ele tentará ser perfeito, se foi controlado, esforça-se para infringir todos os modos de influência, se foi subjugado, esforça-se para desafiar a todos, se foi abusado, abusa de outros. Sempre contra-atacando seus esquemas.

A Hipercompensação de um esquema é uma tentativa de lutar contra uma crença que em tese, diminuiu o indivíduo em algum momento.

Seria até um mecanismo saudável, porém ao invés de compensar uma suposta deficiência ou defeito, este processo todo acaba por perpetuar este “defeito” no inconsciente da pessoa por toda a vida.

Estas compensações narcisísticas ajudam o paciente a lidar com privações emocionais e imperfeições transformando sensações de inferioridade em sensações de superioridade.

Só que no fundo, a pessoa não sente aquilo realmente, ela nunca estará satisfeita consigo mesmo uma vez que ela sempre se comporta buscando anular um defeito que ela acreditou realmente que tem.

Esta insatisfação pessoal contida vai aparecer muito quando diante dos problemas e imprevistos da vida acontece a frustração. Suas reações frente tais frustrações serão exageradas, ele parece sentir um impacto maior internamente e emocionalmente quando algo não sai do jeito que ele esperava mesmo se esforçando ao máximo para isso.

Sintomas depressivos podem ocorrer logo após estas situações onde algo não sai como o esperado tamanha decepção que ele sente por si mesmo.

Esta decepção é maior porque lá dentro, em seu íntimo ecoa alguma ou algumas situações onde ele assimilou que era incapaz, que nada do que faz dá certo.

Estas conclusões de desmerecimento foram assimiladas na infância de maneira recorrente ou diante de algum episódio em especial que desencadeou um mecanismo de compensação moldando sua personalidade de uma maneira onde o que foi dito sobre ele precisa ser anulado o tempo todo.

Podemos encaixar este processo de Hipercompensação como característico daqueles que trazem Transtornos de Personalidade como por exemplo, o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), Transtorno Narcisista, Transtorno Boderline, Transtorno Antissocial, etc.

Neste Esquema de Defectividade o indivíduo realmente acredita que é defeituoso e que se alguém se aproximar, poderá detectar este suposto defeito nele provocando o afastamento das pessoas e a sensação de vergonha.

Este esquema é muito comum de ser criado quando os pais criticavam muito o filho fazendo com que este não se sentisse digno de ser amado dentro de seu contexto familiar.

Além desta situação de criação por pais muito exigentes, outras vertentes psicológicas também consideram que o meio em que se vive a infância além do meio familiar pode desencadear este mesmo Esquema de Defectibilidade.

A criança que passa por episódios de bullyng, por exemplo, pode recorrer ao processo de Hipercompensação. Daí a explicação para alguns casos onde a criança ou adolescente adota comportamentos agressivos com outros para provar a si mesmo ou aos outros, que não é defeituoso ou fraco.

Mas por outro lado, neste caso de Hipercompensação devido ao Bullyng, o indivíduo pode adotar um outro posicionamento defendendo outras vítimas de um abuso semelhante ao que ele sofreu porque ao observar uma outra pessoa sofrendo o que ele mesmo sofreu um dia, ele se identifica e reage.

A reação de defesa que na época ele não teve, ele pode ter depois de um tempo em uma situação que teve um efeito gatilho, que o faz agir mostrando força, coragem que ele acreditou que não tinha em dada ocasião passada.

Mas por que a pessoa não se lembra destas situações e simplesmente não apaga ou desconsidera estes mecanismos que foram criados lá atrás a fim de evitar um Hipercompensação que só vai perpetuar esta sensação de menos valia?

Isso ocorre porque quando expostos a lembranças intensas ou que causaram um stress emocional muito grande, nosso cérebro libera um hormônio chamado cortisol que favorece o esquecimento de memórias muito dolorosas.

Este mesmo mecanismo envolvendo o cortisol é que atua em situações extremadas de violência ou abuso (que não é o tema, no caso). É como se o cérebro organizasse todo um esquema para proteger o indivíduo de traumas emocionais maiores que podem desencadear até mesmo convulsões, desmaios e deixar sequelas psíquico emocionais permanentes.

A fim de tratar estes quadros dentro do comportamento humano, Jeffrey Young, criador da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), criou a Terapia dos Esquemas inicialmente pensando nos transtornos de personalidade como um todo.

Indivíduos que trazem traços de personalidade muito rígidos e pouco ajustados à sociedade costumam relutar em buscar e manter o tratamento psicológico.

Pensando nisso, Young criou a Terapia dos Esquemas que possui pequenas variantes dentro da TCC tradicional. Deste modo, a adesão ao tratamento pode ser mais abrangente envolvendo tanto as pessoas com transtornos de personalidade quanto com outros quadros.

Os esquemas que são a base desta terapia envolvem emoções, memórias, sensações corporais e cognições (significados) formam toda a estrutura basal para as codificações, entendimentos, categorização e avaliação dos estímulos e experiências que as pessoas se deparam e lidam no seu dia a dia.

Explicando melhor: a pessoa que constrói estes esquemas de pensamento, que busca compensar um suposto defeito ao qual ela acreditou que tivesse lá na infância e que provoca uma sensação de que está devendo algo, de que não é capaz vai gerar automaticamente um pensamento do tipo “eu sou uma pessoa ruim”.

Os comportamentos disfuncionais ocorrem a partir exatamente deste esquema. Suas atitudes passam a ser dirigidas por este esquema de pensamento que ela formulou.

De uma maneira mais simples e didática, expomos aqui como estes esquemas de pensamento foram agrupados por Young à fim de determinar o método usado na Terapia de Esquemas.

Alguns modos de operação dos esquemas são agrupados em quatro categorias distintas:

  1. Infância/Criança:

  • Modo vulnerável: a criança se comporta de maneira desamparada, frágil, fica recuada;

  • Modo zangada: acessos de raiva, agressividade;

  • Modo impulsiva: segue e age de acordo com suas vontades e desejos mesmo que de maneira negligente consigo e com os outro;

  • Modo feliz: demonstra satisfeita e com suas necessidades emocionais básicas preenchidas.

  1. Enfretamento Disfuncional:

  • Hipercompensador: suas reações são pautadas em maltratar outras pessoas numa tentativa recorrente de refutar o esquema ou crença;

  • Capitulador Complacente: sujeita-se ao esquema e se torna uma criança passiva, subjugada que cede aos outros;

  • Protetor Desligado: aciona um mecanismo onde se desliga psicologicamente do sofrimento através do abuso de álcool e uso de drogas.

  1. Pais Disfuncionais:

  • Pai/Mãe Punitivos e Exigentes: forçam a criança e a pressionam a cumprir padrões elevados de comportamento e desempenho;

  • Pai/Mãe Punitivos: punições frequentes diante de um comportamento considerado inadequado.

  1. Adulto Saudável:

  • Reforço no comportamento do paciente de usar o bom senso, moderar em suas autocríticas, ressignificar o modo de lidar consigo e com os outros visando o cuidado, o curar-se.

Um dos focos da Terapia dos Esquemas é fazer com que o paciente consiga migrar de um comportamento disfuncional para outro funcional se readaptando frente a novas realidades que não dependem mais de jugos assimilados na infância.

A meta do tratamento da Hipercompensação é fazer com que a pessoa aumente seu controle consciente sobre os esquemas que ele mesmo criou sem perceber ao longo do tempo.

Para isso, são trabalhados na terapia o enfraquecimento de memórias, sensações corporais, cognições e comportamentos que foram criados obedecendo ao seu esquema de conduta que visava desmentir crenças limitantes.

A consciência psicológica que é a percepção e atenção do paciente diante de seus esquemas e quando, porque estes são ativados e perpetuados é o objetivo principal da terapia dos esquemas.

Um exemplo prático apenas ilustrativo para entender como a Hipercompensação pode comprometer a qualidade de vida do indivíduo é o seguinte: vamos supor que uma menina passou a infância ouvindo de sua mãe que ela é feia, gordinha, que ninguém nunca vai se interessar por ela, afinal ela não se cuida, só come besteiras e etc.

Esta menina caso absorva estas críticas constantes pode desenvolver além da autoestima muito baixa, transtornos alimentares como bulimia, anorexia.

Concomitante a depressão, transtornos ansiosos, a crença de que ela não merece uma pessoa interessante, bonita, bem-sucedida ao seu lado vai fazer com que ela se envolva constantemente com pessoas disfuncionais, que a tratam mal, com desmerecimento constante. Assim são desenvolvidos os relacionamentos abusivos.

Qual o esquema que esta menina desenvolveu? Da infância ela trouxe um comportamento vulnerável, frágil, que se submete aos outros.

Ela busca hipercompensar a imagem de menina feia correndo atrás de dietas, exercícios, remédios, cirurgias plásticas e intervenções estéticas repetidamente, transtornos alimentares para parecer bonita, mas ela mesma nunca se enxergará assim.

Por se sentir constantemente inadequada ela pode recorrer ao álcool e drogas para evitar seu sofrimento emocional, se “desligando”.

Este é um quadro hipotético que acontece muito frequentemente de diferentes modos, acarretando diferentes comportamentos disfuncionais que começaram assim que a pessoa absorveu um parecer sobre si e passou a lutar constantemente contra esta opinião.

Para se recuperar o equilíbrio e saúde emocional que foram prejudicadas ao longo da vida e elaborar a Hipercompensação a fim de eliminar o sofrimento causado por este esquema, é preciso buscar tratamento psicoterápico.

A Terapia Cognitiva Comportamental é apenas uma das várias vertentes disponíveis, mas que parece se adequar melhor a estes casos minimizando a relutância ao tratamento.

Todos passamos por situações onde em algum momento seremos julgados como incapazes ou com habilidades e qualidades reduzidas, o que nos diferencia é o modo como lidaremos com estas situações.

Quando percebemos certos comportamentos que nos trazem sofrimento, que não conseguimos mudar, é hora de buscar por apoio, por tratamento com especialistas de saúde mental para que possamos o quanto antes voltar a nos sentir plenos e totalmente capazes de lidar com frustrações e decepções ao longo da vida de maneira saudável e proativa.

Sempre é tempo de buscar a paz de espírito e o equilíbrio para que assim possamos absorver o que de melhor a vida tem para nos oferecer.

Compartilhe