Todo relacionamento é construído e mantido na base das negociações.

Uma vez ou outra eu cedo, o outro cede e assim é construída uma relação saudável com perdas e ganhos de maneira equilibrada.

Quando existe um desequilíbrio e alguém passa a se sobressair em detrimento do outro, é o início de vários conflitos e provavelmente, é assim que começa a ruir qualquer relação.

A etimologia da palavra ceder já nos oferece uma boa base de reflexão.

Ceder vem do latim cedere, que significa retirar-se.

Aquele cede sempre se retira da relação. Não fisicamente, claro, mas a sua personalidade, a sua presença sai de cena.

Todos trazemos em nossa identidade tudo que aprendemos.

Tudo que aprendemos a gostar, desgostar, curiosidades, preferências, desejos, ambições, enfim, somos a soma do que vivemos.

Nossas experiências, os modelos que seguimos em matéria de comportamentos, valores, crenças, etc.

Exatamente por isso que conviver com outra pessoa é algo tão rico e que pode nos oferecer muita coisa em termos de aprendizado, descobertas, empatia e tantos outros pontos que vão contribuir para que possamos nos diferenciar, elaborar quem somos, quais os caminhos que queremos trilhar.

Quantas pessoas sonham em conhecer outros países, outras culturas exatamente para ampliar sua visão de mundo, conhecer pessoas diferentes.

Toda convivência é enriquecedora.

Só que quando algo é enriquecedor não quer dizer que é 100% maravilhoso.

Longe disso.

O que mais nos acrescenta enquanto pessoas são as experiências diferentes.

O problema é quando em algum momento passamos a achar que o mundo do outro é muito mais fascinante do que o nosso.

Com esta ilusão onde o outro é melhor, mais interessante a tendência é que nos anulemos. Afinal de contas, se no meu íntimo eu acho que o outro vale muito mais a pena do que eu mesmo, para que vou insistir em dar minha opinião ou discordar de alguma coisa?

Esta postura de anular-se para agradar ao outro é típica de quem apresenta uma autoestima baixa.

Muitas são as razões que levam a pessoa a realmente acreditar que ela é pouca coisa, que o que ela pensa, diz ou faz não merece tanta importância.

Pode se tratar de uma ideia cultivada na infância acreditando que os irmãos tinham mais atenção dos pais, ou devido a vivências seguidas onde se foi deixado de lado por familiares, amigos ou pessoas que são importantes para nós em algum momento de nossa vida.

O mecanismo de se anular tem como base o medo de ficar sozinho.

Para não correr o risco de ficar na solidão ou parecer sozinho aos outros, passamos a abrir seguidas exceções ou cultivamos uma imensa dificuldade em dizer não para poder agradar as pessoas e deste modo, manter um círculo de pessoas que gostamos ao nosso redor.

Este modo de trazer os outros através de uma espécie de sedução agradando sempre é um mecanismo de defesa que pouco a pouco vai criar um peso muito grande porque é difícil manter um comportamento que não corresponde realmente a quem sou eu.

É como um disfarce, uma máscara que se usa para estar sempre disponível para o outro.

Só que este processo é uma despersonalização, ou seja, eu deixo a minha personalidade totalmente de lado. Já não trago mais minha identidade formada ao longo de minhas vivências pessoais para as relações afetivas.

O comportamento de ceder sempre para agradar ou a dificuldade em dizer não se tornando a pessoa “boazinha” perante os outros não vai acarretar em respeito, lealdade ou carinho.

Muito pelo contrário.

Pessoas egoístas, oportunistas certamente se aproveitarão desta fragilidade e passarão a conviver com o “bonzinho” para obter vantagens.

É um convite aos manipuladores e às pessoas abusivas.

Estas pessoas logo percebem seu comportamento permissivo e ocuparão o espaço que você deixou em aberto. Aquele espaço, aquele vazio que você achava que iria ser preenchido por grandes amigos ou amores, logo será ocupado por pessoas que só visam sua própria satisfação.

Isto pode acontecer em qualquer tipo de relação interpessoal. Seja uma relação de amizade, profissional ou amorosa.

Quantas vezes ficamos sabendo de alguém que passa anos ao lado de alguém que simplesmente não respeita a pessoa, a ofende, não ajuda em nada, usufrui da vida do outro em benefício próprio e a pessoa nunca diz um basta, continua a abaixar a cabeça por anos e anos.

Este é um processo lento e gradual de auto anulação. É a base de todo relacionamento abusivo tanto pessoal, afetivo quanto profissional.

Começa com uma abrir uma excessãozinha aqui, outra ali, assumir a responsabilidade do outro uma vez ou outra, deixar de reclamar ou de mostrar descontentamento para não deixar o outro chateado (e correr o risco de ele ir embora) e assim vai.

É preciso firmeza e gentileza. O equilíbrio. Dizer não, expor sua opinião vai mostrar aos outros quem é você, do que você gosta, do que não gosta.

As pessoas vão gostar de sua cia não por você concordar sempre, mas por despertar uma sensação agradável de segurança.

Faça o exercício da empatia e reflita sobre o que uma pessoa faz que desperte interesse em você? O que ela tem? E não estamos falando de interesse romântico, amoroso, falamos de interesse comum.

Certamente é o jeito ímpar daquela pessoa que atrai nossa atenção. O modo como ela trata os outros, como ela lida com dificuldades ou como se comporta mesmo quando existe uma situação de insatisfação.

A pessoa que busca agradar aos outros não tem este encanto, ela fica desfocada, sem brilho.

Isto sem falar que ela acaba trazendo para perto de si somente pessoas que ela considera como complementares, ou seja, pessoas que complementam alguma característica que eu acho que não tenho.

É a pessoa popular, divertida, bonita, descolada, etc. Só que tais características fui eu quem observei e concluí que o outro tem. Se conversar com outras pessoas, você poderá perceber que tem gente que não acha isso tudo daquela pessoa e pensa justamente o contrário.

O que podemos concluir com isso? Que nós temos opiniões diferentes sobre os outros. Por mais que você tente agradar o outro, este outro não vai ter uma opinião sobre você que você espera que tenha.

É impossível manter um disfarce o tempo todo, ser boazinha o tempo todo e isto não é garantia de que você vai agradar alguém.

Ás vezes justamente um comportamento que nós achamos que é ridículo pode despertar o carinho e admiração de alguém.

Não temos o controle do gosto do outro. E ponto. Você nunca vai agradar alguém 100%.

Liberte-se desta tentativa de se diminuir para poder caber na forma de pessoa perfeita porque pessoa perfeita não existe.

A mágica do ser humano é justamente esta: não ser perfeito.

São justamente nossas características como defeitos e qualidades, erros e acertos que vão nos tornar alguém único, instigante.

Se você não gosta de beber e o pessoa do trabalho lhe convida para um happy hour e todos ali estão tomando uma cerveja, outros drinks e você prefere tomar um suco, isto não faz de você nem mais nem menos especial. Isto faz de você; você mesma.

Se alguém insiste em pedir para você revisar um relatório e você sabe que isso não é sua função, explique educadamente isso: olha, eu adoraria te ajudar, mas estou cheia de serviço e agora não dá mesmo. Me desculpe. E ponto.

A pessoa pode torcer a cara e achar ruim, mas ela certamente irá repensar antes de lhe pedir isto novamente. E se ela não entender que você não quer ou não tem que ajudar, é melhor manter esta pessoa distante mesmo.

Claro que ajudar uma vez ou outra faz parte, é mais do que normal, mas quando algo vai atrapalhar e pode comprometer você de alguma maneira, é sinal que quem pede não se importa muito com seu bem-estar. Selecione quem merece estar perto de você.

É preciso ter muito cuidado com o que você tolera. Isto porque é assim que você está ensinando como as pessoas devem te tratar.

Isso sem falar nas pessoas cheias de problemas, conflitos que adoram eleger uma pessoa como sua “porta problemas” particular.

Claro que se alguém precisa de ajuda, conselhos, um ombro, podemos e devemos ajudar, mas isso não pode virar uma constante ou me prejudicar.

Ajudo sim, lhe ouço, mas se a pessoa vive ocupando seus ouvidos, é hora de dar um chacoalhão até caridoso “fulano, sei que você está sofrendo, mas se comportar sempre da mesma maneira não vai resolver nada. Outro dia conversamos. ”

Perceba que ser firme, ter opinião não é ser mal-educado. É ser equilibrado, é cuidar de si mesmo, é ter a sua própria saúde como fator mais importante.

Como disse Herbert B. Swope, grande jornalista e editor: “ Eu não sei qual é o caminho do sucesso. Mas com certeza tentar agradar a todos é o caminho do fracasso. ”

Sendo assim, se você pretende ter um relacionamento feliz, primeiro aprenda a se relacionar bem consigo mesmo. Valorize cada característica sua, entenda os defeitos e erros cometidos como partes importantes na construção de si.

O amor próprio é que vai lhe permitir construir relações saudáveis com amor de verdade, respeito e empatia. Afinal de contas, um relacionamento feliz tem de contar com, no mínimo, duas pessoas felizes.

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