Afeminofobia

A sexualidade humana é um vasto mundo que aponta para todo um contexto cultural e social da sociedade humana.

Desde os primórdios das civilizações registros apontam para inúmeros comportamentos humano da ordem sexual.

Alguns comportamentos tidos como naturais em determinada época e contexto social, hoje são crimes previstos no código penal como o infanticídio ou pedofilia, por exemplo.

Da mesma forma em algumas culturas ou épocas quando a sexualidade não obedecia as convenções da sociedade esta era considerada crime, como a homossexualidade, por exemplo.

Até nos dias de hoje em algumas culturas do Oriente existem leis que proíbem a prática ou comportamento homossexual no país.

Felizmente tais comportamentos aos poucos têm acesso ao esclarecimento e a tendência é a extinção de práticas arcaicas que violam os direitos básicos do ser humano.

Graças ao esclarecimento e a evolução dos estudos e análises científicas do comportamento humano, muitos conceitos dentro da sexualidade humana já ajudam muito a mostrar para sociedade como que a sexualidade traz pontos amplos e como se refere ao ser humano, não pode ser limitada somente à uma convenção social.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) podemos entender a sexualidade assim:

A sexualidade faz parte da personalidade de cada um, é uma necessidade básica e aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. Sexualidade não é sinônimo de coito (relação sexual) e não se limita à ocorrência do orgasmo. Sexualidade é muito mais do que isso, é a energia que motiva a encontrar amor, contato e intimidade e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas e em como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, portanto, a saúde física e mental. Se saúde é um direito fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada um direito humano básico.”

Este conceito fornecido pela OMS retrata muito bem do que se trata a sexualidade humana.

Mais do que focar na atividade sexual em si, o espectro de comportamentos sexuais se refere ao sentir, aos movimentos, preferências e ações que reportam a determinado gênero.

Um indivíduo do gênero masculino pode se identificar mais com comportamentos e gostos considerados femininos e ser heterossexual.

Assim como pode ser homossexual e preferir comportamentos, trejeitos e gostos que são vistos como mais masculinos.

Note que em momento algum ao se mencionar “feminino” ou “masculino” estamos apontando para a orientação sexual ou identidade de gênero. Falamos aqui da expressão, independente da conduta ou orientação sexual.

Já quando falamos em Orientação Sexual, nos referimos ao gênero que atrai a pessoa.

Aí estão os heterossexuais (que sentem atração pelo sexo oposto), os homossexuais (são atraídos por pessoas do mesmo sexo) e os bissexuais, que sentem atração tanto pelo gênero masculino quanto pelo feminino.

Esta é a base simples de orientação sexual. Mas como tudo que se refere a comportamento humano é vasto e vai além de conceitos pré-estabelecidos, esta base dita como simples precisa ser melhor entendida em sua amplitude.

Hoje o universo LGBT além de conquistar espaço de fala e promover maior entendimento dos diversos comportamentos que a sexualidade humana pode expressar, oferece meios de se entender cada vez mais que a pessoa não é mais nem menos devido a sua orientação sexual.

Ocorre que cada vez que a sociedade passa a sofrer transformações no seu modo convencional de agir, uma parcela significativa de pessoas sem entendimento ou sem convivência com novas culturas ou pontos de vista passam a se comportar de modo agressivo devido ao medo da mudança.

Aliás, o medo é a emoção primária de desencadeia agressividade e raiva.

A homofobia já é um termo mais conhecido, que mostra o comportamento de repulsa ou agressividade verbal e/ou física direcionado a homossexuais, sejam homens ou mulheres homossexuais ou transexuais.

Agora outra modalidade de pessoas com o comportamento semelhante aos homofóbicos são as pessoas que agem com agressividade ou repulsa diante de pessoas que saem do comportamento esperado para o seu gênero.

As pessoas que se mostram contra o comportamento afeminado de homens se mostram revoltados com mulheres com condutas masculinizadas possuem um comportamento de Afeminofobia.

A Afeminofobia traz uma regra mais interiorizada, oculta ou dissimulada, onde é dito que as pessoas podem até ser gays ou lésbicas, mas não podem o ser de maneira mais explícita.

O instigante é que não só heterossexuais podem ser afeminofóbicos, mas dentro da comunidade gay este comportamento também se mostra constante.

Mesmo aqueles que são gays condenam homens e mulheres “que dão muita bandeira”.

Sites de namoro entre homossexuais comprovam a Afeminofobia quando nos perfis de quem busca um amor está escrito de maneira frequente algo do tipo “busco caras mais masculinos”, “procuro encontrar homens machos” e assim vai.

Um estudo publicado no site Gay Times , referência na comunidade LGBTQ, mostrou que cerca de 75% dos gays considerados não afeminados acha que gays que se mostram mais femininos atraem uma reputação ruim ao coletivo homossexual masculino.

Os dados obtidos através de entrevistas feitas no Reino Unido e na Califórnia mostraram que 33% menos casos de homofobia aconteceram com os que não se mostram mais afeminados.

Pôde-se concluir ainda que 35% dos homossexuais masculinos nestes estados disseram concordar com o comportamento de Afeminofobia dos heterossexuais.

Este estudo mostra que a Afeminofobia afeta não só os homossexuais, mas também os bissexuais e heterossexuais que “não desempenham seu papel de gênero adequadamente”.

Se analisarmos a etimologia da palavra da qual se originou o termo Afeminofobia, podemos entender ainda mais do que se trata.

O termo afeminado significa aquele que não tem ou perdeu seus modos viris, diz-se de homossexual masculino. Esta é a definição do dicionário.

Por conclusão então, Afeminofobia é o medo de pessoas que trazem gesto feminino, não viril enquanto indivíduo do sexo masculino.

A predileção por uma figura masculina é reflexo de uma homofobia elaborada nos moldes atuais.

O que tem ocorrido é uma adequação de comportamentos de repulsa para que dadas opiniões ou pontos de vistas que já são rechaçados possam se tornar aceitáveis aparentemente.

Para a Psicóloga e Sexóloga Marta Pascual, da Espanha, pessoas que não se comportam de acordo com seu sexo já designado são taxados de “aqueles que dão bandeira” independente de qual seja sua orientação sexual.

Já nos estudos da sexualidade humana, entendemos que somos sexuados porque fomos elaborados individualmente no modo feminino ou masculino.

Porém existem estruturas que compõe toda a construção sexual de cada um que contam com aspectos sexuais primários, secundários e terciários, que são os papéis de gênero.

Cada pessoa traz em si uma mistura única de níveis diferentes de sexualidade no que tange o genético, emocional, neuronal, cognitivo, sua conduta, e o seu erótico pessoal.

Isto significa que todas as pessoas se desenvolvem a partir de vários conceitos próprios de sexualidade.

Podemos dizer como um exemplo prático: existem meninas que desde cedo não gostavam de brincar de casinha. Detestavam “conversas de menina” e sempre se identificaram muito mais com atividades consideradas masculinas como brincar de carrinho, brincar de luta ou jogar futebol.

Além destas características, elas se mostram mais objetivas nas palavras, não gostam de ficar conversando longamente sobre suas emoções.

Ou seja, meninas que mostram gostos e comportamentos mais comuns em homens, mas que são heterossexuais.

Este é um exemplo de como a identidade sexual não se reduz somente ao que é esperado no comportamento sexual da pessoa, ou ao sexo que se tem atração. Vai muito além disso.

Eu posso ser uma mulher que funciona focada em resultados, mais prática (característica masculina) ou que funciona melhor seguindo processos pré-definidos (característica feminina). Também posso me mostrar mais emotiva ou mais resolutiva. Ou seja: houve uma mistura de características masculinas e femininas na formação de minha personalidade.

Perceba como características femininas e masculinas estão atreladas ao comportamento de todos nós, independente do sexo biológico.

A Afeminofobia não é exclusiva dos homossexuais homens. As mulheres homossexuais ou as lésbicas também sofrem situações de aversão explícita ou disfarçada o tempo todo.

O que acontece é que toda manifestação com viés masculino aparece mais socialmente, é mais explícito.

No caso de traição entre dois homens, por exemplo, é esperada já uma reação mais viril, explícita. Por isso a Afeminofobia aparece mais.

No caso das lésbicas, esta Afeminofobia aparece quando diante da mulher que costuma ter uma imagem mais masculizada, que não se arruma tanto usando maquiagens ou decotes ou longos cabelos aparecem os conselhos do tipo “se você se arrumasse mais ficaria linda”, “você tem pernas lindas, devia mostrar mais”, ”use um batom, vai te valorizar”, “ deixe seu cabelo comprido, vai chamar mais atenção!”.

O que podemos concluir então é que a Afeminofobia existe tanto na esfera dos gays homens quanto com as mulheres. O que difere é o modo como é expresso este comportamento de aversão ao que não condiz com o papel social do homem ou da mulher.

Há cerca de 30 anos atrás ao ver uma mulher dirigir um caminhão, era comum relacionar a profissão com a orientação sexual.

Se for caminhoneira a mulher certamente seria lésbica.

Com o tempo este rótulo foi ficando para trás e a própria sociedade se adaptou aos novos tempos onde a profissão nada tem a ver com o gênero biológico da pessoa.

Claro que ainda existem profissões que necessitam de características próprias de um gênero, como a força física que é mais comum aos homens ou a coordenação motora fina que é mais comum às mulheres, por exemplo. Mas cada vez mais o cerne que determina a função de homem e mulher na sociedade vem passando por readaptações.

O curioso é perceber que o homem que demonstra comportamento mais afeminado é mais bem aceito entre as mulheres.

É por isto também que cada vez mais a Afeminofobia é encarada como um tipo de homofobia que aparece mais entre os homossexuais homens.

Isto talvez aconteça devido ao comportamento de competição enraizado nos homens desde seus primórdios onde precisam brigar para manter seu espaço e ser o “líder” do grupo.

Nossas raízes genéticas, a antropologia explica muito de nossos comportamentos mantidos até hoje enquanto espécies. A sociedade sempre vai evoluir e se adaptar, mas certas condutas inconscientes são preservadas por milênios em nossa memória genética.

Encarar a mulher como a mais frágil, a que é mais vulnerável vem daí. Talvez exatamente por ainda haver resquícios desta imagem de que quem apresenta comportamento mais afeminado é fraco ou frágil demais que a Afeminofobia tenha encontrado espaço para se estabelecer entre os homossexuais que mantém um postura mais viril.

Lidar com a sexualidade, o comportamento sexual mesmo diante de adaptações culturais e sociais sempre terá um pano de fundo, uma base comportamental registrada no inconsciente coletivo há séculos atrás.

No que se refere ao cérebro humano e seus comportamentos, nada acontece de um dia para outro.

A Afeminofobia pode ser uma destas adaptações sociais frente a comportamentos antes não tão explícitos que seguiu por um ramo desfavorável , que aos poucos tende a ser extinto assim como a homofobia que embora ainda exista, tem diminuído gradativamente ao percebermos que cada vez mais as famílias acolhem aqueles que “se comportam de uma maneira diferente do esperado”.

Dentro desta gama de comportamentos frente à orientação sexual, já é esperado que surjam reações de mesma força mas de intensidade contrária, como nas leis de física.

Há de se abrir um adendo antes de dizer que alguém age com Afeminofobia porque tudo acontece muito rápido, as informações chegam numa velocidade superior à velocidade de aferição.

Ou seja: em um mundo onde o acesso à informação é simples e rápido, as pessoas têm acesso a informações boas e de qualidade, mas tem este mesmo acesso a informações falsas que são replicadas a todo instante.

Acontece que alguém pode ser visto como intolerante, mas pode ser que a pessoa apenas não sabia como agir ou não estava ainda acostumada a lidar com tantos tons de tratamento no que se refere à sexualidade humana.

Lembre-se que faz pouco tempo que o assunto sexualidade, orientação sexual passou a ser tratado com seriedade, com caráter científico.

Devemos nos lembrar de que foi somente e, 1990 que a OMS retirava da lista do Código Internacional de Doenças (CID) a Homossexualidade. Faz só 31 anos que o mundo passou a começar a entender que homossexualidade não é doença e como tal, não tem cura e nem é nocivo.

Obviamente que ao usar a sexualidade como forma de ofender alguém ou prejudica-la isto tem de ser encarado como comportamento inadequado e dependendo pode ser até crime.

É por isso que artigos como este precisam ser replicados a fim de ajudar não só aquele que sofre com a Afeminofobia como também aqueles que ainda não entenderam do que se trata e como proceder.

O comportamento humano é determinado pelos exemplos que o indivíduo tem no seu ambiente aliado à sua própria individualidade.

A forma como nós tratamos outras pessoas é aprendida com nossos pais, nossa família ou através do grupo social ao qual nós crescemos e formamos nossa personalidade.

Porém, conforme crescemos passamos a praticar a empatia, a nos identificar com diferentes pessoas com diferentes histórias de vida.

Nosso comportamento vai se adequando, mas a essência enquanto pessoa se mantém.

Por exemplo, se eu venho de uma família onde é comum falar muito e alto, é provável que esta característica se mantenha por muitos anos.

Eu posso falar muito e alto, mas quando passo a frequentar outros ambientes, converso com outras pessoas de criações diferentes, eu analiso meu comportamento, pondero se devo agir da mesma forma ou não e me adapto de acordo com o que considero aceitável no meu dia a dia.

É provável que em casa eu me comporte ainda falando alto e muito, mas no trabalho ou outros lugares, diminuo o tom e espero o outro falar.

Eu mudei minha essência então? Não. Eu me adaptei para que o convívio e minha produção no trabalho sejam mais eficientes; afinal é preciso ouvir o outro, trocar ideias e não atrapalhar uma reunião ali na sala ao lado.

Este é um exemplo de como o meu jeito de ser surge, molda-se no ambiente e pode comprometer ou não minha vida social e profissional.

No que diz respeito ao comportamento sexual e conduta frente a sexualidade do outro a teoria é exatamente a mesma.

Algumas famílias lidam com a sexualidade de maneira mais aberta, é comum conversar sobre isso, quando alguém se diz interessado em alguém a conversa flui. Já em outros ambientes a sexualidade ainda é tida como tabu.

A maneira como aquele que se percebe como homossexual é visto dentro da família vai interferir muito em seu papel na sociedade.

Muitas vezes aquele que as pessoas chamam de “muito escandaloso, dá muita bandeira” é o que precisa conseguir ter atenção, ser ouvido, se sentir acolhido.

Enquanto que o “mais discreto” teve de ser assim para evitar sofrer com julgamentos equivocados que relacionavam seu caráter com sua sexualidade. Então é melhor manter o comportamento mais masculino, adequado ao sexo biológico a fim de não “decepcionar” totalmente a família.

Sendo assim, o que podemos concluir frente a Afeminofobia é que nada justifica o comportamento de repudiar o outro por sua maneira de ser.

Cada pessoa possui uma base de construção de comportamento e personalidade individual.

A expressão de gênero seja masculina, feminina ou andrógina (quando a pessoa não demonstra traços nem masculinos nem femininos) é só mais uma característica do universo inestimável do comportamento humano.

Não são determinantes as expressões de gênero. O que determina a identidade da pessoa é a reunião de inúmeros aspectos de sua vida familiar, social, profissional, afetiva, etc.

Quando o comportamento do outro desperta um impulso de raiva ou agressão isto é sinal de que eu tenho algum conteúdo em mim que não foi bem elaborado.

Se me sinto ameaçado quando outra pessoa se comporta de maneira mais feminina ou menos feminina talvez seja hora de buscar o autoconhecimento principalmente na questão sexual que trago comigo.

Isto independente de minha orientação ser homossexual, heterossexual ou transexual. Se a expressão de gênero do outro incomoda, é hora de entender exatamente com qual identidade de gênero eu me identifico mais. Isto é o autoconhecimento.

Quanto mais conseguirmos ampliar nossa percepção sobre as pessoas e o modo de ser de cada uma, mais conseguiremos entender e estabelecer relações humanas saudáveis, empáticas e que trarão benefícios à comunidade como um todo.

Estabelecer relações interpessoais permitindo que o outro possa demostrar o que é sem exigir determinado comportamento dentro de sua identidade é ampliar a gama de possibilidade através de novas experiências.

Esta disposição faz com que possamos não só receber novas perspectivas de vida como também oferecer os próprios pontos de vistas na sociedade em que estamos inseridos.

Isto é promover a saúde mental comum, um do outro.

Para que possamos diluir e talvez até eliminar comportamentos que condenam o outro por sua expressão de gênero como a Homofobia, Afeminofobia e outros é preciso entender do que se trata para que possamos ajudar a não disseminar informação errada ou pré-conceitos construídos a partir do medo das mudanças.

A sexualidade é uma característica íntima e só diz respeito ao indivíduo. A forma como o outro se expressa em seus relacionamentos afetivos corresponde a sua própria identidade somente.

Comportamentos como a Afeminofobia mostram o desprezo por aquele que não corresponde aos meus anseios, ou seja: é uma atitude que se refere ao ego ou ainda, ao modo doentio de se colocar em primeiro lugar sempre: EGOismo.

Pessoas inconvenientes, que chamam atenção ou se mostram mais escandalosas existem desde que o mundo foi criado. Tais atitudes independem de sua orientação sexual.

Por isso, ao perceber que um homem se mostra mais ou menos afeminado a primeira coisa que devemos nos lembrar é: eu nada tenho a ver com isso.

Afinal de contas quando nós nos comportamos com nosso jeito de ser em um ambiente diferente, certamente estaremos sob os mesmos olhos que tentam nos identificar, julgar e esperamos um comportamento educado e empático, não é mesmo?

A palavra primordial que qualquer pessoa deve ter frente a alguém que se comporta de maneira diferente do que ela espera é: empatia.

Quanto mais empatia, mais a sociedade evolui de maneira equilibrada e saudável.

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